WILHELM
REICH (1897-1957)
Wilhelm
Reich nasceu em 1897, em Dobrzanica, uma pequena aldeia do distrito
de Peremyshliany, no noroeste da Ucrânia (na época
o território pertencia ao Império Austro-Húngaro),
no seio de uma família abastada de proprietários judeus
germanizados. Era filho de Leon e Cecilie Reich. Pouco depois, a
família mudou-se para sul, para a região da Bukovina,
onde o pai foi gerir uma grande fazenda em Jujinetz. O jovem Reich
foi educado, estritamente, segundo a cultura alemã e os pais
mantiveram-no sempre afastado da população judaica
de cultura iídiche. Até aos 13 anos teve sempre professores
particulares e depois estudou no liceu de Czernowitz.
Desde
cedo, vivendo na fazenda e em contato directo com a natureza, se
interessou pelos fenómenos e funções naturais.
Na sua autobiografia, Reich conta que aos quatro anos já
sabia o essencial sobre a sexualidade animal e humana e que nessa
tenra idade tentou intimidade erótica com uma criada. Aos
doze anos já tinha relações sexuais com as
moças da fazenda. Em 1909, Cecilie, durante as freqüentes
viagens e ausências do seu ciumento e colérico marido,
foi seduzida pelo preceptor dos filhos. À noite, o jovem
Wilhelm espiava os amantes, chegando mesmo a sentir desejo pela
própria mãe. No início de 1910, Leon acabaria
por descobrir o adultério, com o involuntário testemunho
do aterrado Wilhelm. A partir de então, Leon passou a atormentar
e a humilhar impiedosa e diariamente sua mulher, de tal forma que
ela acabou por se suicidar em 29 de setembro de 1910, no culminar
de uma tragédia familiar de contornos edipianos, que muito
traumatizaram Reich e lhe definiram o rumo da sua vida.
Em
1914, cheio de remorsos, o pai contraiu voluntariamente uma pneumonia
que degenerou em tuberculose e morreu, deixando o jovem Reich e
seu irmão Robert (nascido em 1900), desamparados, com a gestão
da fazenda em circunstâncias muito difíceis. Apesar
de tudo, Reich prosseguiu os seus estudos, mas no ano seguinte,
no decurso da I Guerra Mundial, a região foi invadida pelos
Russos e a fazenda destruída. Reich teve de fugir para Viena,
completamente arruinado, onde foi incorporado no exército
austríaco, graduando-se como oficial e servindo na frente
italiana.
Em
1918, com o final da guerra, Reich regressou a Viena e à
vida civil e ansioso em aprender rapidamente uma profissão
que lhe permitisse subsistir, ingressou no curso de Direito, o mais
breve de todos, mas depressa se aborreceu e logo se transferiu para
a Faculdade de Medicina, onde foi aluno sobredotado e valendo-se
do seu estatuto especial de veterano de guerra, completou o curso
de seis anos em apenas quatro. Sobrevivia dando explicações
aos seus colegas. Em 1919, ao preparar um seminário sobre
sexologia conheceu Freud e ficou bastante impressionado com o seu
mestre: "Ao contrário dos outros psicanalistas, como
seriam chamados mais tarde, Freud não se dava ares e comportava-se
com a maior das naturalidades e seus movimentos eram ágeis
e descontraídos."
Reich
formou-se em 1922, iniciou seus trabalhos com o tratamento de pacientes
com distúrbios mentais, na Universidade Neurológica
e Psiquiátrica, junto a Paul Schilder, incluindo, no tratamento,
técnicas de hipnose e de psicoterapia. Em 1924, fez sua pós-graduação,
tendo sido membro integrante da sociedade psicanalítica de
Viena, até 1930.
Foi
casado com a sua paciente Annie Reich (que se tornou psicanalista),
de quem teve duas filhas (Eva e Lore) e se divorciou em 1932. Viveu
mais tarde com a bailarina Elsa Lindenberg, de quem se separou ao
partir para os Estados Unidos. Pouco depois de lá chegar,
viveu com a sua assistente Ilse Ollendorf, com quem se casou e com
quem teve um filho, Peter. Mais tarde, divorciou-se de Ilse e teve
uma ligação com a bióloga e sua colaboradora,
Aurora Karrer, sua última companheira.
Em
1933 Reich foi forçado pelo nazismo a sair da Alemanha, mudou-se
para Oslo, na Noruega e trabalhou no Instituto de Psicologia da
universidade local. Ali viveu até 1939, quando mudou-se para
Nova York, divulgando suas idéias, agora na língua
inglesa, tendo seu livro "A função do orgasmo"
sido editado neste idioma e publicado a primeira vez em 1942. Nos
Estados Unidos ele criou um instituto para o estudo do "orgone
universal" e utilizou em tratamentos - inclusive do câncer.
Em 1954 passou a ser investigado pela FDA (Federal Food and Drug
Administration), o que lhe rendeu um processo e posterior aprisionamento,
após infrutíferas tentativas de apelação.
Reich não reconhecia outra pessoa na defesa de sua ciência
para si. Encarcerado desde 12 de março de 1957, morre de
ataque cardíaco em 3 de novembro
IDÉIAS
EM CONFLITO
Reich foi um discípulo dissidente de Sigmund Freud, propôs
a gênese da neurose como consequência dos conflitos
de poder que se estabelecem nas relações sociais e
suas implicações emocionais e psicológicas.
Dava grande ênfase à importância de desenvolver
uma livre expressão dos sentimentos sexuais e emocionais
dentro do relacionamento amoroso maduro. Reich enfatizou a natureza
essencialmente sexual das energias com as quais lidava e descobriu
que a bioenergia era bloqueada de forma mais intensa na área
pélvica de seus pacientes. Ele chegou a acreditar que a meta
da terapia deveria ser a libertação dos bloqueios
do corpo e a obtenção de plena capacidade para o orgasmo
sexual, o qual sentia estar bloqueado na maioria dos homens e das
mulheres.
Embora
divergindo de Freud, Reich deste não se apartou, na compreensão
de que toda a psiquê humana deriva da compreensão das
funções sexuais. E suas opiniões radicais a
respeito da sexualidade resultaram em consideráveis equívocos
e distorções de seu trabalho por autores futuros e,
conseqüentemente, despertaram muitos ataques difamatórios
e infundados.
A
FUNÇÃO DO ORGASMO
Com este título, sua obra mais conhecida expõe conceitos
para os quais a psicanálise freudiana não estava preparada.
Nesta obra, Reich aproxima-se, por meio transverso, de idéias
menosprezadas pelo meio científico tradicional, tais como
a Teosofia e até mesmo o Espiritismo, falando da existência
de uma substância intangível, vital, que batizara de
orgone cósmico - e que equivaleria, de grosso modo, ao "prana"
teosófico ou o "fluido cósmico universal"
de Kardec (Reich desconhecia completamente o Yôga). Analisando
os efeitos da respiração no ato sexual sobre o indivíduo,
Reich chegou à conclusão que seu uso harmonizaria
o corpo físico, com implicações na própria
mente, normalizando o fluxo de trocas com o meio, pela correta absorção
do orgônio.
PERSEGUIÇÃO
SISTEMÁTICA
A Psicanálise, tal como construída pelo seu criador,
impunha um quase total engessamento das idéias em torno daquilo
que dissera Freud. Onde quer que fosse, Reich era tratado como louco
e suas idéias como pura mistificação. Alguns
de seus seguidores atribuem a prisão, bem como as anteriores
perseguições, a uma eventual conspiração
da sociedade freudiana.
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