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DONALD
WOODS WINNICOTT (1886-1971)
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Donald
Woods Winnicott foi um pediatra e psicanalista britânico da
segunda metade do século XX. Nasceu na cidade de Plymouth,
a 7 de abril de 1886, agregou significativas contrubuições
à psicanálise e segundo ele, cada
ser humano traz inato um potencial para amadurecer, para se integrar;
porém, o fato de essa tendência ser inata não
garante que ela realmente vá ocorrer, pois, para tanto, depende
de um ambiente facilitador que forneça cuidados suficientemente
bons, sendo que, no início, esse ambiente é representado
pela mãe. É importante ressaltar que esses cuidados
dependem da necessidade de cada criança, pois cada ser humano
responderá ao ambiente de forma própria, apresentando,
a cada momento, condições, potencialidades e dificuldades
diferentes.
Nessa
medida, podemos pensar que, se amadurecer significa alcançar
o desenvolvimento do que é potencialmente intrínseco,
possíveis dificuldades da mãe em olhar para o filho
como diferente dela, com capacidade de alcançar certa autonomia,
podem tornar o ambiente não suficientemente bom para aquela
criança amadurecer. Não basta, apenas, que a mãe
olhe para o seu filho com o intuito de realizar atividades mecânicas
que supram as necessidades dele; é necessário que
ela perceba como fazer para satisfazê-lo e possa reconhecê-lo
em suas particularidades. Num artigo intitulado A mãe
dedicada comum, escrito em 1966 e publicado numa coletânea
de conferências e palestras radiofônicas, WINNICOTT
descreveu um estado psicológico especial, um modo típico
que acomete as mulheres gestantes no final da gestação
e nas semanas que sucedem o parto. Nessa palestra, o autor nos conta
como, em 1949, surgiu quase que por acaso a expressão mãe
dedicada comum, que serviu para designar a mãe capaz de vivenciar
esse estado, voltando-se naturalmente para as tarefas da maternidade,
temporariamente alienada de outras funções, sociais
e profissionais.
Trata-se,
pois, de uma condição psicológica muito especial,
de sensibilidade aumentada, que WINNICOTT chega a comparar a uma
doença, uma dissociação, um estado esquizóide,
que, no entanto, é considerado normal durante esse período.
Ele afirma
que, na base do complexo de sensações e sentimentos
peculiares dessa fase, está um movimento regressivo da mãe
na direção de suas próprias experiências,
quando era bebê e das memórias acumuladas ao longo
da vida, concernentes ao cuidado e proteção de crianças.
Tão
gradualmente como se instala, em condições normais,
o estado de preocupação materna primária
deve dissipar-se. Essas condições incluem a saúde
física do bebê e da mãe, após um parto
não traumático, uma amamentação tranqüila
e pouca interferência de elementos estressantes. Após
algumas semanas de intensa adaptação às necessidades
do recémnascido, este sinaliza que seu amadurecimento
já o torna apto a suportar as falhas maternas. A mãe
suficientemente boa deve compreender esse movimento do bebê
rumo à dependência relativa e a ele corresponder, permitindo-se
falhas que abrirão espaço ao desenvolvimento.
De
fato, na obra de WINNICOTT (1979/1983; 1988/2002) encontramos que
a capacidade das mães em dedicar a seus filhos toda a atenção
de que precisam, atendendo suas necessidades de alimentação,
higiene, acalanto ou no simples contato sem atividades, cria condições
para a manifestação do sentimento de unidade entre
duas pessoas. Da relação saudável que ocorre
entre a mãe e o bebê, emergem os fundamentos da constituição
da pessoa e do desenvolvimento emocional-afetivo da criança.
A
capacidade da mãe em se identificar com seu filho permite-lhe
satisfazer a função sintetizada por WINNICOTT na expressão
holding. Ela é a base para o que gradativamente se transforma
em um ser que experimenta a si mesmo. A função do
holding em termos psicológicos é fornecer apoio egóico,
em particular na fase de dependência absoluta antes do aparecimento
da integração do ego. O holding inclui principalmente
o segurar fisicamente o bebê, que é uma forma de amar;
contudo, também se amplia a ponto de incluir a provisão
ambiental total anterior ao conceito de viver com, isto é,
da emergência do bebê como uma pessoa separada que se
relaciona com outras pessoas separadas dele. WINNICOTT (1979/1983)
também coloca que a mãe, ao tocar seu bebê,
manipulá-lo, aconchegá-lo, falar com ele, acaba promovendo
um arranjo entre soma e psique e, principalmente ao olhá-lo,
ela se oferece como espelho no qual o bebê pode se ver.
Na
visão winnicottiana, já nos primórdios da existência,
é fundamental para a constituição do self o
modo como a mãe coloca o bebê no colo e o carrega;
dá-se, assim, a continuidade entre o inato, a realidade psíquica
e um esquema corporal pessoal. O
holding é necessário desde a dependência absoluta
até a autonomia do bebê, ou seja, quando os espaços
psíquicos entre este e sua mãe já estão
perfeitamente distintos.
WINNICOTT
(1976/1983), visando mostrar a pais leigos a importância do
que eles faziam naturalmente, traz uma descrição mais
concreta do que está envolvido no holding: Protege
da agressão fisiológica, leva em conta a sensibilidade
cutânea do lactente tato, temperatura, sensibilidade
auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade à queda (ação
da gravidade) e a falta de conhecimento do lactente da existência
de qualquer coisa que não seja ele mesmo. Inclui a rotina
completa do cuidado dia e noite, e não é o mesmo que
com dois lactentes, porque é parte do lactente, e dois lactentes
nunca são iguais. Segue também as mudanças
instantâneas do dia-a-dia que fazem parte do crescimento e
do desenvolvimento do lactente, tanto físico como psicológico
(WINNICOTT - 1979/1983, p.48). Em sua teoria, conforme colocado
anteriormente, afirma que o estado de preocupação
materna primária implica em uma regressão parcial
por parte da mãe, a fim de identificar-se com o bebê
e, assim, saber do que ele precisa, mas, ao mesmo tempo, ela mantém
o seu lugar de adulta. É, ainda, um estado temporário,
pois o bebê naturalmente passará da dependência
absoluta para a dependência relativa, o
que é essencial para o seu amadurecimento.
A
dependência absoluta refere-se ao fato de o bebê depender
inteiramente da mãe para ser e para realizar sua tendência
inata à integração em uma unidade. À
medida que a integração torna-se mais consistente,
o amadurecimento exige que, vagarosamente, algo do mundo externo
se misture à área de onipotência do bebê.
Ser capaz de adotar um objeto transicional já anuncia que
esse processo está em curso e, a partir daí, algumas
mudanças se insinuam. O bebê está passando para
a dependência relativa e pode se tornar consciente da necessidade
dos detalhes do cuidado maternal e relacioná-los, numa dimensão
crescente, a impulsos pessoais. No
início da passagem da dependência absoluta para a dependência
relativa, os objetos transicionais exercem a indispensável
função de amparo, por substituírem a mãe
que se desadapta e desilude o bebê. A transicionalidade marca
o início da desmistura, da quebra da unidade mãe-bebê.
Na
progressão da dependência absoluta até a relativa,
WINNICOTT (1988/2002) mapeou três realizações
principais: integração, personificação
e o início das relações objetais. É
nesse período de dependência relativa que o bebê
vive estados de integração e não integração,
forma conceitos de eu e não eu, mundo externo e interno,
estágio de concernimento, podendo então seguir em
seu amadurecimento, no que o autor denomina independência
relativa ou rumo à independência. Aqui, o bebê
desenvolve meios para poder prescindir do cuidado maternal. Isto
é conseguido mediante a acumulação de memórias
de maternagem, da projeção de necessidades pessoais
e da introjeção dos detalhes do cuidado maternal,
com o desenvolvimento da confiança no ambiente. É
importante ressaltar que, segundo WINNICOTT (1988/2002), a independência
nunca é absoluta. O indivíduo sadio não se
torna isolado, mas se relaciona com o ambiente de tal modo que pode
se dizer que ambos se tornam interdependentes.
Livros
de D. W. Winnicott publicados em português: A classificação
das obras de Winnicottt (ano e letra) segue a estabelecida por Knud
Hjulmand (também publicadas nesse site). Acrescentamos também
a classificação estabelecida por Harry Karnac (W!,
W2...W21) e os respectivos livros na sua primeira edição,
tanto em português quanto no original.
1958a:
Da pediatria à psicanálise. Trad. de Jane Russo. Rio
de Janeiro. Francisco Alves, 1978. Da pediatria à psicanálise.
Trad. de Davy Litman Bogomoletz. Rio de Janeiro, Imago, 2000.
W6
- Collected Papers: Through Paediatrics to Psycho-Analysis. London,
Tavistock ,1958.
1964a:
A criança e seu mundo. Trad. de Álvaro Cabral. Rio
de Janeiro, Zahar Editores, 1985. W7 - The Child, the Family, and
the Outside World. Harmondsworth, Penguin Books, 1964.
1965a:
A família e o desenvolvimento individual. Trad. de Marcelo
Brandão Cipola. São Paulo, Martins Fontes, 1983. W8
The Family and Individual Development. London, Tavistock
Publications, 1965.
1965b:
O ambiente e os processos de maturação. Trad. de Irineu
Constantino Schuch Ortiz. Porto Alegre, Artes Médicas, 1983.
W9 - The Maturational Processes and the Facilitating Environment.
London, Hogarth 1965.
1971a:
O brincar e a realidade. Trad. de José Octavio de Aguiar
Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro, Imago, 1975. W10 - Playing
and Reality. London, Tavistock, 1971.
1971b:
Consultas terapêuticas em psiquiatria Infantil. Trad. de Joseti
Marques Xisto Cunha. Rio de Janeiro, Imago, 1984. W11 - Therapeutic
Consultations in Child Psychiatry. London, Hogarth, 1971.
1977:
The Piggle: o relato do tratamento psicanalítico de uma menina.
Trad. de Else Pires Vieira e Rosa de Lima Martins. Rio de Janeiro,
Imago, 1979. W12 - The Piggle. An Account of the Psycho-Analytic
Treatment of a Little Girl. Ed. I.Ramzy. London, Hogarth 1977.
1984a:
Privação e delinqüência. Trad. de Álvaro
Cabral. São Paulo, Martins Fontes, 1987. W13 Deprivation
and Delinquency. Eds. C.Winnicott/R.Shepherd/M.Davis. London, Tavistock,
1984.
1986a:
Holding e interpretação. Trad. de Sonia Maria Tavares
Monteiro de Barros. São Paulo, Martins Fontes, 1991. W15
- Holding and Interpretation. Fragment of an Analysis. London, Hogarth,
1986.
1986b:
Tudo começa em casa. Trad. de Paulo Sandler. São Paulo,
Martins Fontes, 1989. W14 - Home Is Where We Start From. Eds. C.Winnicott/R.Shepherd/M.Davis.
Harmondsworth, Penguin 1986.
1987a:
Os bebês e suas mães. Trad. de Jefferson Luiz Camargo.
São Paulo, Martins Fontes, 1988. W16 - Babies and their Mothers.
Eds. C.Winnicott/R.Shepherd/M.Davis. Reading, Mass., Addison-Wesley,
1987.
1987b:
O gesto espontâneo. Trad. de Luis Carlos Borges. São
Paulo, Martins Fontes, 1990. W17 - The Spontaneous Gesture, Selected
Letters. Ed. F.R.Rodman. Cambridge, Mass., Harvard University Press,
1987.
1988:
Natureza humana. Trad.de Davi Litman Bogomoletz. Rio de Janeiro,
Imago, 1990. W18 - Human Nature. Eds. C.Bollas/M.Davis/R.Shepherd.
London, Free Association, 1988.
1989a:
Explorações psicanalíticas. Trad.de José
Octavio de Aguiar Abreu. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.
W19 - Psycho-Analytic Explorations. Eds C.Winnicott/R.Shepherd/M.Davis.
Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1989.
1993a:
Conversando sobre crianças [com os pais]. Trad. de Álvaro
Cabral. São Paulo, Martins Fontes, 1993. W20 - Talking to
Parents, eds. C.Winnicott/C.Bollas/M.Davis/R.Shepherd. Reading,
Massachusetts, Addison-Wesley, 1993.
1996a:
Pensando sobre crianças. Trad. de Maria Adriana Veríssimo
Veronese. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997. W21 - Thinking
About Children, eds. R.Shepherd/J.Johns/H.T.Robinson. London, Karnac
Books, 1996.
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