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P
S I C O L O G I A.. A N A L Í
T I C A
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Anterior
mesmo ao período em que estava juntoa Freud, Jung começou
a desenvolver uma sistema teórico que chamou, originalmente,
de "Psicologia dos Complexos", mais tarde chamando-a de
"Psicologia Analítica", como resultado direto de
seu contato prático com seus pacientes. O conceito de inconsciente
já está bem sedimentado na sólida base psiquiátrica
de Jung antes de seu contato pessoal com Freud, mas foi com Freud,
real formulador do conceito em termos clínicos, que Jung
pôde se basear para aprofundar seus próprios estudos.
O contato entre os dois homens foi extremamente rico para ambos,
durante o período de parceria entre eles. Aliás, foi
Jung quem cunhou o termo e a noção básica de
"complexo", que foi adotado por Freud.
Utilizando-se
do conceito de "complexos" e do estudo dos sonhos e de
desenhos, Jung passou a se dedicar profundamente aos meios pelos
quais se expressa o inconsciente. Em sua teoria, enquanto o inconsciente
pessoal consiste fundamentalmente de material reprimido e de complexos,
o inconsciente coletivo é composto fundamentalmente de uma
tendência para sensibilizar-se com certas imagens, ou melhor,
símbolos que constelam sentimentos profundos de apelo universal,
os arquétipos: da mesma forma que animais e homens parecem
possuir atitudes inatas, chamadas de instintos ("fato"
este negado por correntes de ciências humanas, como por exemplo
em antropologia o culturalismo de Franz Boas ), também é
provável que em nosso psiquismo exista um material psíquico
com alguma analogia com os instintos.
Os
tipos psicológicos
Jung sentia que a ênfase da psicanálise nos fatores
eróticos era um ponto de vista unilateral, uma visão
reducionista da motivação humana e do seu comportamento.
Ele propôs que a motivação do homem fosse entendida
em termos de uma energia de vida criativa geral - a libido - capaz
de ser investida em direções diferentes, assumindo
grande variedade de formas. A libido corresponderia ao conceito
de energia adotado na Física, a qual pode ser interpretada
em termos de calor, eletricidade, motricidade, etc. As duas direções
principais da libido são conhecidas como extroversão
(projetada no mundo exterior, nas outras pessoas e objetos) e introversão
(dirigida para dentro do reino das imagens, das idéias, e
do inconsciente). As pessoas em quem a primeira tendência
direcional predomina são chamadas extrovertidas, e introvertidas
aquelas em quem a segunda direção é mais forte.
A
sua necessidade em criar uma tipologia psíquica decorreu
da questão que nasceu em seu interior acerca de sua divergência
com Freud e até com outros profissionais. Ele poderia, assim,
ter perguntado: "Por que divirjo de Freud?". A resposta
tomou forma na análise que fez das teorias psicológicas
de seu mestre e de Adler, também um ex-discípulo de
Freud. Para este as neuroses derivavam de problemas com os instintos,
para o outro do próprio ego, no seu sentimento de superioridade
ou inferioridade. Um, portanto, extrovertido, e o outro introvertido.
Jung também propôs que se poderia agrupar as pessoas
de acordo com o seu maior desenvolvimento em uma das quatro funções
psicológicas: pensamento, sentimento, sensação,
ou intuição. Transformações de libido
de uma esfera de expressão para outra - por exemplo, de sexualidade
para religião - são realizadas por símbolos
que são gerados durante a mudança de personalidade.
A
psicologia junguiana também merece outro destaque: o processo
de individuação. Conforme Nise da Silveira (2006)
todo ser tende a realizar o que existe nele, em germe, a crescer,
a completar-se. Assim é para a semente do vegetal e para
o embrião do animal. Assim é para o homem, embora
o desenvolvimento de suas potencialidades seja impulsinado por forças
instintivas inconscientes, isso adquire um caráter peculiar:
o homem é capaz de tomar consciência desse desenvolvimento
e de influenciá-lo. Precisamente no confronto do inconsciente
com o consciente, no conflito como na colaboração
entre ambos é que os diversos componentes da personalidade
amadurecem e unem-se numa síntese, na realização
de um indivíduo específico e inteiro. Essa confrontação
"é o velho jogo do martelo e da bigorna: entre os dois,
o homem, como o ferro, é forjado num todo indestrutível,
num indivíduo. Isso, em termos toscos, é o que eu
entendo por processo de individuação" (Jung).
O
processo de individuação não consiste num desenvolvimento
linear. É um movimento de circunvolução que
conduz a um novo centro psíquico. Jung denominou esse centro
de Self (si mesmo). Quando consciente e inconsciente vêm ordenar-se
em torno do Self, a personalidade completa-se. O Self será
o centro da personalidade total, como o ego é o centro do
campo do consciente. O conceito junguiano de individuação
tem sido muitas vezes deturpado. Entretanto é claro e simples
na sua essência: tendência instintiva a realizar plenamente
potencialidades inatas. Mas, de fato, a psique humana é tão
complexa, são de tal modo intricados os componentes em jogo,
tão variáveis as intervenções do ego
consciente, tantas as vicissitudes que podem ocorrer, que o processo
de totalização da personalidade não poderia
jamais ser um caminho reto e curto de chão bem batido. Ao
contrário, será um percurso longo e difícil.
A
psique objetiva
Jung percebeu que a compreensão da criação
de símbolos era crucial para o entendimento da natureza humana.
Ele então explorou as correspondências entre os símbolos
que surgem nas lutas da vida dos indivíduos e as imagens
simbólicas religiosas subjacentes, sistemas mitológicos,
e mágicos de muitas culturas e eras. Graças à
forte impressão que lhe causou as muitas notáveis
semelhanças dos símbolos, apesar de sua origem independente
nas pessoas e nas culturas (muitos sonhos e desenhos de seus pacientes
de variadas nacionalidades exprimiam temas mitológicos longínquos),
foi que ele sugeriu a existência de duas camadas da psique
inconsciente: a pessoal e a coletiva. O inconsciente pessoal inclui
conteúdos mentais adquiridos durante a vida do indivíduo
que foram esquecidos ou reprimidos, enquanto que o inconsciente
coletivo é uma estrutura herdada comum a toda a humanidade
composta dos arquétipos - predisposições inatas
para experimentar e simbolizar situações humanas universais
de diferentes maneiras. Há arquétipos que correspondem
a várias situações, tais como as relações
com os pais, o casamento, o nascimento dos filhos, o confronto com
a morte. Uma elaboração altamente derivada destes
arquétipos povoa todos os grandes sistemas mitológicos
e religiosos do mundo.
Na
qualidade de cientista altamente desapegado e desconfiado do favorecimento
que se dá a certas verdades, para ele materialismo e ciência
não eram sinônimos. O materialismo não passa
o culto a um deus exteriormente concreto por meio da razão,
um tipo de fé nos princípios limitadores das leis
físicas. "A razão nos impõe limites muito
estreitos e apenas nos convida a viver o conhecido". Para sermos
realmente justos, convém recebermos igualmente os aspectos
racionais e irracionais da vida.
Perto
do fim da vida Jung também sugeriu que as camadas mais profundas
do inconsciente independem das leis de espaço, tempo e causalidade,
dando lugar aos fenômenos paranormais como a clarividência
e a precognição. A estas correspondências entre
acontecimentos interiores e exteriores, por meio de um significado
comum, ele deu o nome de sincronicidade. Muitos fatos ocorridos
enquanto tratava seus clientes o fizeram crer que os acontecimentos
se dispunham "de tal modo, como se fossem o sonho de uma 'consciência
maior e mais abrangente, por nós desconhecida'" (Obras
Completas Vol. VIII, p. 450).
Sincronicidade
Esse termo é uma tentativa de encontrar formas de explicação
racional para fenômenos que a ciência de então
não alcançava, tais como os referidos acima, fenômenos
não causais que não podem ser explicados pela razão,
porém são significativos para o indivíduo que
os experimenta. Para uma abordagem sobre a construção
do conceito veja-se Capriotti, Letícia. Jung e sincronicidade:
a construção do conceito), e uma explanação
sintética e didática de sincronicidade, veja-se Capriotti,
Letícia. Jung e sincronicidade: o conceito e suas armadilhas.)
A
construção do conceito de sincronicidade surgiu da
leitura que Jung fez de um grande número de obras sobre alquimia
e o pensamento renascentista. Jung chegou a possuir grande quantidade
de textos alquímicos originais, que o levaram também
a usar a expressão Unus Mundus em sua autobiografia, e a
idéia de Anima Mundi.
Uma
interessante análise da contribuição da psicologia
profunda de Freud Jung para a formação do pensamento
ocidental, mostrando como Jung tinha preocupações
epistemológicas rigorosas pode ser vista em Tarnas. Em função
disso, tais fenômenos puderam ser examinados, mas apenas como
algo psicológico, e não propriamente da natureza,
resultando em algumas distorções interpretativas,
em inúmeros sentidos.
A
partir da contribuição de Jung, vários desenvolvimentos
em diferentes áreas do conhecimento têm ampliado a
compreensão da relação entre os processo psíquicos
e o mundo exterior. O conceito de inconsciente coletivo encontra
ecos na nova física de Bohm e Capra, nos campos morfogenéticos
de Sheldrake, nas psicologia profunda e na ecopsicologia norte-americanas.
Imagens
do inconsciente
No Brasil, Jung teve uma conhecida aluna, a Dra. Nise da Silveira,
fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente. Ela escreveu, dentre
outros, o livro Jung: vida e obra, publicado em primeira
edição em 1968.
Jung
- Uma resposta ao nosso tempo
Na terapia junguiana, que explora extensivamente os sonhos e fantasias,
um diálogo é estabelecido entre a mente consciente
e os conteúdos do inconsciente. A doença psíquica
é tida como uma conseqüência da separação
rígida entre elas. Os pacientes são orientados a ficarem
atentos aos significados pessoal e coletivo (arquétipo) inerente
aos seus sintomas e dificuldades. Sob condições favoráveis
eles poderão ingressar no processo de individuação:
uma longa série de transformações psicológicas
que culminam na integração de tendências e funções
opostas, e na realização da totalidade. Jung trilhou
a individuação, pois havia a necessidade imperiosa
nele de ir ao inferno e voltar para poder mostrar o caminho da volta
àqueles que ficaram perdidos pelo caminho da vida. Tornou-se
ele uma resposta sincera e corajosa ao nosso tempo. "Sou eu
próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer
minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à
resposta que o mundo me der".
Breve
biografia de Jung em tópicos
1875: Nasce na Suíça, a 26 de julho, Carl Gustav Jung,
filho de um pastor;
1895 - 1900: Estuda medicina na Universidade da Basiléia;
1900: É assistente de Eugen Bleuler, médico-chefe
do Burghölzli (hospital psiquiátrico) em Zurique;
1902: Tese de doutoramento: "Sobre a psicologia e a patologia
dos fenômenos ditos ocultos";
1905 - 1909: Chefe de clínica no Burghölzli;
1905 - 1913: Professor na Faculdade de Medicina de Zurique; aulas
de psicologia e psiconeuroses;
1907: "Psicologia da Demência Precoce"; encontro
com Freud;
1908: I Congresso Internacional de Psicanálise;
1909: Abertura de clínica particular;
1910 - 1914: Primeiro presidente da Associação Psicanalítica
Internacional;
1913: Jung dá o nome à sua psicologia de "Psicologia
Analítica"; demissão de seu posto de ensino na
Universidade de Zurique
1914: Conferências em Londres e Aberdeen; é mobilizado
para o ser-viço de saúde;
1916: "Sete Sermões aos Mortos" e "A Função
Transcendente"; estudo sobre os gnósticos;
1918 - 1919: Comandante do campo de internação de
Soldados ingleses; pintura de mandalas;
1921: "Tipos Psicológicos";
1923: Construção da torre perto do lago de Zurique;
Jung trava amizade com Richard Wilhelm (tradutor do "I Ching
- O Livro das Mutações")
1924 - 1925: Visita aos índios Pueblo do Novo México
(EUA);
1925 - 1926: Expedição a Uganda, ao Quênia,
às margens do Nilo; visita aos Elgonys no Monte Elgon;
1928: "O Eu e o Inconsciente";
1929: Comentário de "O Segredo da Flor de Ouro";
1932: Prêmio de literatura em Zurique;
1933: Viagem ao Egito e Palestina;
1934: Presidente da Sociedade Médica Geral para Psicoterapia;
1936: Doutor "honoris causa em Harvard (Massachussets);
1938: Viagem à Índia, a convite do governo britânico;
presidente do Congresso Internacional de Psicoterapia, em Oxford;
membro da Real Sociedade de Medicina;
1940: "Psicologia e Religião";
1944: Nomeação para a cátedra de Psicologia
da Faculdade de Medicina de Basiléia; "Psicologia e
Alquimia";
1945: Doutor "honoris causa" da Universidade de Genebra;
1948: Inauguração do Instituto C. G. Jung em Zurique;
1951: "Aion";
1952: "Sincronicidade" e "Resposta a Jó";
1955: Morte de sua mulher a 27 de novembro;
1955 - 1956: "Mysterium Conjunctionis";
1957: Começo da redação de "Memórias,
Sonhos e Reflexões", com Aniela Jaffé; entrevista
na TV para a BBC;
1961: Termina, dez dias antes de morrer, um ensaio para "O
Homem e Seus Símbolos"; morre a 6 de junho.
Obras
Devido à metodologia usada por Jung, seus escritos costumam
ser de leitura difícil e penosa. É recomendável
iniciar por algum de seus comentadores, como Nise da Silveira (Jung:
vida e obra) e Aniela Jaffe (Memórias, sonhos e reflexões
de C. C. Jung). Eis abaixo, a lista das obras de Jung, publicadas
em português no Brasil:
A
Energia Psíquica.
A Prática da Psicoterapia.
A Vida Simbólica: Escritos Diversos.
Ab-reação, análise dos sonhos, transferência.
Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo.
Cartas de Carl Gustav Jung.
Consideraciones Sobre la Historia Actual (ainda não traduzido
para língua portuguesa).
Escritos Diversos.
Estudos Alquímicos.
Estudos Experimentais Vol. II.
Estudos Experimentais.
Estudos Psiquiátricos.
Eu e o Inconsciente.
Freud e a Psicanálise.
Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade.
Memórias, Sonhos e Reflexões. Autobiografia escrita
em conjunto com Aniela Jaffé.
Misterium Coniunctionis 1.
Misterium Coniunctionis 2.
Misterium Coniunctionis 3.
O Desenvolvimento da Personalidade.
O Homem e seus Símbolos. Obra para leigos, organizada por
Jung e escrita por ele e seus colaboradores, com artigos de Aniella
Jaffé, Marie-Louise fon Franz e outros.
O Segredo da Flor de Ouro: Um Livro de Vida Chinesa.
Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.
Presente e Futuro.
Psicologia da Religião Ocidental e Oriental.
Psicologia do Inconsciente.
Psicologia e Alquimia.
Psicologia e Religião Oriental.
Psicologia e Religião.
Símbolo da Transformação na Missa.
Símbolos da Transformação: Análise dos
Prelúdios de uma Esquizofrenia.
Sincronicidade.
Tipos Psicológicos.
A natureza da psique.
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