É
uma metodologia de trabalho de abordagem psicossomática,
que traz uma contribuição ao uso do corpo em psicoterapia,
conciliando a noção de equilíbrio de mente
e corpo. Surgiu da proposta de Pethö Sándor (1969),
visa obter a descontração muscular e, paralelamente,
fazer a pessoa alcançar um estado de paz, tranquilidade e
introspeção. O termo deriva do verbo grego "Khalaó"
e significa: relaxamento, afastar-se do estado de ira, fúria,
violência, abrir uma porta, desatar
amarras, deixar ir, perdoar os pais, perdoar a si mesmo, retirar
o véu dos olhos, deixar o passado para trás.
DESCRIÇÃO
DO MÉTODO:
O relaxamento do paciente é alcançado pelo terapêuta
através de estímulos monótonos, oferecidos
por meio de toques suaves e sequênciais nos dedos dos pés,
no calcanhar e na convergência tendinosa do tríceps
sural da região posterior da perna. A pessoa que recebe esses
estímulos fica deitada em decúbito dorsal, com os
braços estendidos ao longo do corpo e de olhos fechados.
A
Calatonia, "pele" e o "contato", suave e atento
como parte integrante da Psicoterapia. Comentários e um breve
histórico sobre sua origem.
O
Dr. Sándor era um médico, nascido na Hungria, que
na época da segunda grande guerra mundial trabalhava no atendimento
de feridos e refugiados em deslocamento pela Europa. Naquele período,
dadas as precárias condições geradas pela guerra,
com frequência, via-se diante de situações onde
os recursos médicos, além de precários, eram
de pouca ajuda no atendimento de seus pacientes.
Embora
sua especialidade fosse a Ginecologia/Obstetrícia, foi designado
para o cuidado de pessoas portadoras dos mais variados traumatismos,
conforme ele mesmo relatou, ao falar sobre o surgimento de seu método:
"Idealizou-se este método durante a segunda guerra mundial,
com base nas observações feitas em casos de readaptação
de feridos e congelados, no período posterior à grande
retirada da Rússia.
Num
hospital da Cruz Vermelha foram atendidas as mais diferentes queixas
na fase pós operatória, desde membros fantasma e abalamento
nervoso, até depressões e reações compulsivas".
Era praticamente impossível, frente à estas pessoas,
estabelecer um limite entre o traumatismo físico e o sofrimento
psicológico que os atingia, mas Sándor já estava
atento às estreitas relações existentes entre
nossos processos corporais e nosso funcionamento psicoemocional.
Foi portanto nestas condições algo dramáticas
de trabalho, que ele tentou utilizar, sem sucesso, os 'métodos
de relaxamento' usuais na época, como por exemplo o método
de Shultz.
Porém,
a gravidade das condições destes pacientes não
lhes permitiam a concentração e a colaboração
necessárias para a aplicação deste método.
Foi quando Sándor observou o seguinte: "Percebeu-se
então, que além da medicação costumeira
e dos cuidados de rotina, o contato bipessoal, juntamente com a
manipulação suave nas extremidades e na nuca, com
certas modificações leves quanto à posição
das partes manipuladas, produzia descontração muscular,
comutações vasomotoras e recondicionamento do ânimo
dos operados, numa escala pouco esperada."
As
duas citações acima foram extraídas de um texto
dirigido à profissionais. Mas, se traduzirmos sua observação
para uma linguagem do cotidiano, podemos dizer que, em síntese,
ele está nos contando como e quando começou a perceber
"a atuação terapêutica propiciada pelo
contato suave atento e cuidadoso", ajudando na recuperação
daquelas pessoas.
Quem
conhece um pouco da história pessoal do Dr. Sándor
sabe o quanto ele mesmo, bem como sua família, foram duramente
atingidos pelos horrores da guerra. No entanto, podemos perceber,
nas entrelinhas da sua descrição, o tipo de conduta
que o levou à estas observações: a atitude
compassiva e amorosa que assumia diante do sofrimento de seus pacientes...
Por mais três anos Sándor trabalhou na Alemanha, cuidando
de pacientes com queixas psicológicas, ou neuropsiquiátricas.
Neste período já começava a sistematizar e
fundamentar sua técnica - a primeira sequência dos
toques sutis da Calatonia - com base nos conhecimentos da Psicologia
e da Neurologia.
Em
1949 emigrou para o Brasil, onde prosseguiu seu trabalho, atuando
principalmente na área da Psicologia. Vivendo já em
São Paulo, como terapeuta e professor, passou a aplicar e
ensinar a Calatonia, que passou a ser conhecida por seus alunos,
como um "método de relaxamento". E, como tal, passou
a ser utilizada no atendimento psicoterapêutico. Já
sabemos como a Calatonia surgiu, e como chegou até nós.
Mas, afinal, no que consiste? Como atua? No que ela difere de outros
métodos de relaxamento? Qual sua utilidade? No significado
do próprio termo encontramos alguns elementos para responder
à estas questões.
Segundo
o próprio Prof. Sándor, Calatonia é uma expressão
que "... indica um tônus descontraído, solto,
mas não apenas do ponto de vista estático e muscular.
No original grego o verbo khalaó indica relaxação
e também alimentação, afastar-se do estado
de ira, fúria, violência, abrir uma porta, desatar
as amarras de um odre, deixar ir, perdoar aos pais, retirar todos
os véus dos olhos, etc."
Portanto,
podemos dizer que a Calatonia, enquanto método de relaxamento
visa, evidentemente, promover efeitos de soltura e/ou distensão
muscular, ou seja a "regulação" do tônus.
Mas sua atuação vai além do nível apenas
muscular, promovendo também "reorganizações
psico-fisiológicas" em vários níveis.
Vejamos
como isto acontece: o procedimento básico da Calatonia consiste
em uma série de "toques", que o terapeuta realiza
em vários pontos do corpo do cliente; A sequência de
toques mais conhecida - pois foi a primeira ensinada por Sándor
- é realizada em nove pontos da área dos pés,
acrescida de um toque na nuca (região occipital). Estes toques
são feitos em silêncio, de forma simples e suave, durante
1 a 2 minutos em cada um dos pontos citados. Portanto os estímulos
realizados pelo terapeuta vão atuar, em princípio,
sobre a pele da pessoa que os recebe.
Vale
aqui pararmos um momento para mencionar algumas características
muito especiais da nossa pele. Esta espécie de "envelope"
que estabelece os limites do nosso corpo é, na verdade, altamente
provida de minúsculas estruturas: os receptores nervosos.
Estudos mais recentes sobre as particularidades e funções
dos receptores nervosos da pele já fazem com que autores
como Montagu considerem a pele como um "órgão"
e não apenas um tecido que nos protege das intempéries...
Assim,
segundo este enfoque, a pele é considerada como o nosso principal
aparato sensorial. Não apenas porque os nossos órgãos
dos sentidos sejam, na verdade, tecido cutâneo que se diferenciou
(como acontece com as mucosas da boca, na percepção
do paladar); Mas principalmente porque cada milímetro de
nossa pele é provido de numerosos "receptores nervosos",
ou seja, estruturas neurológicas capazes de captar e conduzir
os variados tipos de estímulos: calor, frio, pressão,
etc. Como se fossem minúsculos radares, nos mantêm
informados sobre a infinidade de estímulos à que somos
submetidos à cada instante.
Mas
existe ainda uma outra característica importante da pele,
que diz respeito à sua própria origem e formação
durante nosso desenvolvimento ainda no útero materno: As
células que lhe dão origem provêm da mesma camada
embrionária da qual se forma nosso sistema nervoso central,
ou seja, a ectoderme. A descrição deste fato levou
o pesquisador Montagu a escrever esta curiosa observação:
"Portanto, o sistema nervoso é uma parte escondida da
pele, ou ao contrário, a pele pode ser considerada como a
porção exposta do sistema nervoso".
As
implicações deste fato podem ser observadas na própria
estrutura da nossa pele. Para ilustrar este comentário vamos
apresentar no quadro a seguir uma síntese das descrições
feitas pelo mesmo autor, Montagu, sobre a constituição
da estrutura da nossa pele. Vejamos como essa estrutura é
altamente complexa e potencialmente "sensível"
aos estímulos táteis:
O
sentido do tato é o primeiro a ser desenvolvido no feto,
podendo ser observado ainda no período embrionário,
a partir da 6a. semana de vida intra-uterina.
Média de Corpúsculos de Meissmer presentes na epiderme
por milímetro quadrado:- Cerca de 80 em crianças.-
20 em adultos.- 4 em idosos.
Média de receptores nervosos presentes a cada 100mm2. de
pele: Cerca de 640.000. Pontos táteis por cm2 de pele: Cerca
de 7 a 135.
Número de fibras nervosas oriundas da pele que entram na
medula espinal, conduzindo estímulos aferentes: Superior
a meio milhão.
Outras estruturas presentes em um pedaço de pele com 3 cm
de diâmetro:- 3 milhões de células.- Entre 100
e 340 glândulas sudoríparas.- 50 terminações
nervosas.- 90 cm de vasos sanguíneos..
Falando
agora do ponto de vista da Psicologia, encontramos hoje em vários
autores o reconhecimento da importância do contato - no sentido
literal do termo - tanto para o adequado desenvolvimento de uma
criança, quanto para a manutenção do equilíbrio
psicofísico do adulto. Aliás, se olharmos um pouquinho
para trás, vamos perceber que este nem é um achado
tão recente da Psicologia: Jung já dizia, em 1935,
que no tempo de nossos ancestrais a "consciência"
humana formou-se a partir do "relacionamento sensorial da nossa
pele com o mundo exterior".
Pesquisadores
como Neumann, ao estudarem o desenvolvimento infantil, expressaram
uma idéia semelhante, ao afirmar que no recém nascido
"noção de eu" forma-se gradativamente, a
partir do contato que se estabelece entre a criança e sua
mãe.
Voltando
agora à forma de atuação da Calatonia: Já
dissemos que os toques são realizados na pele. Estes estímulos
vão portanto atuar sobre os inúmeros receptores nervosos
ali existentes. E, mais ainda: vão se propagar naturalmente
(através das vias neurológicas aos quais estão
conectados) para o sistema nervoso como um todo. Daí percebermos,
na prática, que tal atuação se expressa de
forma muito particular para cada pessoa com quem trabalhamos.
Para
alguns, podem surgir, predominantemente, reações ao
nível fisiológico e/ou motor (como "sensações",
ou movimentos mais, ou menos sutis); Para outros em termos afetivo/emocionais,
(na forma de recordações, associações,
etc.); Para outros ainda podem ocorrer alterações
do estado de consciência análogos àqueles promovidos
pela 'meditação', com a eventual recordação
de imagens. Imagens estas que, do ponto de vista psicoterapêutico,
têm um valor semelhante ao valor dos sonhos.
Assim,
a Calatonia atua potencialmente em vários níveis sobre
a complexa estrutura psicofísica de cada indivíduo,
trazendo à tona elementos, que podem ser elaborados dentro
do contexto da psicoterapia. Além disso, pode atuar também
promovendo "reequilibrações" do sistema
psicofísico, através de processos mais sutís,
e um tanto complexos para que os abordemos aqui. Para os leitores
interessados neste aspecto, sugerimos a leitura dos casos clínicos
relatados no livro "Técnicas de Relaxamento" indicado
ao final.
Mas,
se aceitarmos que a principal meta da psicoterapia é criar
condições para que a pessoa amplie a consciência
que tem de si própria, a ponto de poder expressar tão
plenamente quanto possível suas potencialidades individuais
com equilíbrio e criatividade; Se aceitarmos ainda que cada
pessoa é um todo indivisível e que seu corpo e seu
psiquismo são apenas diferentes formas de expressão
desta mesma unidade sincrônica, então podemos entender
a função da Calatonia, como um importante recurso
na facilitação do nosso acesso ao mundo interno do
ser humano.
Conforme
podemos perceber no parágrafo acima, a forma de trabalho
terapêutico que Sándor desenvolveu trás, implícita,
uma determinada maneira de entender tanto a natureza do ser humano,
quanto a função da psicoterapia. De fato, a Calatonia,
mais do que uma simples técnica, (que se define pelos seus
procedimentos práticos) constitui-se hoje em um método
de trabalho terapêutico. Método este que integra elementos
da Psicologia Profunda (em especial as idéias de Jung) visando
promover a integração psicofísica do indivíduo.
Pode ser importante ainda acrescentar aqui algo a respeito dos desenvolvimentos
mais atuais deste método.
Com
relação aos toques descritos no início desta
nossa conversa, cabe dizer que aquela foi a forma inicial da Calatonia.
Ao longo de mais de quarenta anos de trabalho o Prof. Sándor
foi acrescentando inúmeros outros procedimentos àquela
sequência inicial, conhecida como "toques nos pés":
Mantendo sempre as características básicas da atuação
(ou seja os estímulos táteis, realizados de forma
suave) idealizou muitas novas formas de toques, além de realizar
e transmitir aos seus alunos farta pesquisa sobre os processos anátamo/fisiológicos
envolvidos na aplicação destes toques.
Finalmente,
cabe dizer ainda que este método, embora tão estreitamente
baseado em fundamentos psicológicos, não se constitui
em um recurso de uso estritamente psicoterapêutico. Vários
colegas, de áreas afins têm já relatado a sua
efetiva utilidade em campos variados, tais como na Fonoaudiologia,
na Fisioterapia, na Odontologia, na Pedagogia e outros campos. O
Prof. Sándor veio a falecer, de forma inesperada para nós,
a 28 de Janeiro de 1992, ainda em plena atividade criativa. Seu
trabalho no entanto continua através das atividades de vários
grupos de estudos, conduzidos por seus ex-alunos.
Bibliografia
SANDOR, P. e outros, "Técnicas de Relaxamento",
Ed. Vetor; São Paulo.
MONTAGU, A., "Tocar: o Significado Humano da Pele", Ed.
Summus; São Paulo.
JUNG, C.G., "Fundamentos de Psicologia Analítica",
Ed. Vozes; Petrópolis.
NEUMANN, E.: "A Criança - Estruturas e Dinâmica
da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua
Formação", Ed. Cultrix; São Paulo.9.
http://www.calatonia.net/cidicala.html