O
trabalho do psicólogo canadense Robert Hare, de 74 anos,
confunde-se com quase tudo o que a ciência descobriu sobre
os psicopatas nas últimas duas décadas. Foi ele quem,
em 1991, identificou os critérios hoje universalmente aceitos
para diagnosticar os portadores desse transtorno de personalidade.
Hare começou a aproximar-se do tema ainda recém-formado,
quando, trabalhando com detentos de uma prisão de segurança
máxima nas proximidades de Vancouver, ficou intrigado com
uma questão: "Eu queria entender o motivo pelo qual,
em alguns seres humanos, a punição não tem
efeito algum". A curiosidade levou-o até os labirintos
da psicopatia doença para a qual, até hoje,
não se vislumbra cura. "O que tentamos agora é
reduzir os danos que ela causa, aos seus portadores e aos que os
cercam."
Um
psicopata nasce psicopata?
Ninguém nasce psicopata. Nasce com tendências para
a psicopatia. A psicopatia não é uma categoria descritiva,
como ser homem, ou mulher, estar vivo, ou morto. É uma medida,
como altura, ou peso, que varia para mais, ou para menos.
O
senhor é o criador da escala usada mundialmente para medir
a psicopatia. Quais são as características que aproximam
uma pessoa do número 40, o grau máximo que sua escala
estabelece?
As principais são:
Ausência de sentimentos morais, como remorso, ou gratidão,
Extrema facilidade para mentir.
Grande capacidade de manipulação.
Mas
a escala não serve apenas para medir graus de psicopatia.
Serve para avaliar a personalidade da pessoa. Quanto mais alta a
pontuação, mais problemática ela pode ser.
Por isso, é usada em pesquisas clínicas e forenses
para avaliar o risco que um determinado indivíduo representa
para a sociedade. "Não há como dizer se uma criança
se tornará um adulto psicopata. Mas, se ela age de modo cruel
com outras crianças e animais, mente olhando nos olhos e
não tem remorso, isso sinaliza um comportamento problemático
no futuro"
Todo psicopata comete maldades?
Não necessariamente com o intuito de cometer a maldade. Os
psicopatas apresentam comportamentos que podem ser classificados
de perversos, mas que, na maioria dos casos, têm por finalidade
apenas tornar as coisas mais fáceis para eles e não
importa se isso vai causar prejuízo, ou tristeza a alguém.
Mas há os psicopatas do tipo sádico, que são
os mais perigosos. Eles não somente buscam a própria
satisfação como querem prejudicar outras pessoas,
sentem felicidade com a dor alheia.
Até
que ponto a associação entre a figura do psicopata
e a do serial killer é legítima?
A estimativa é que cerca de 1% da população
mundial preencheria os critérios para o diagnóstico
de psicopatia. Nos Estados Unidos, haveria, então, cerca
de 3 milhões de psicopatas. Se o número de serial
killers em atividade naquele país for, como se acredita,
de aproximadamente cinquenta, isso significa que a participação
desses criminosos no universo de psicopatas é muito pequena.
Por outro lado, segundo um estudo do psiquiatra americano Michael
Stone, cerca de 90% dos serial killers seriam psicopatas.
Em
que medida o ambiente influencia na constituição de
uma personalidade psicopata?
Na década de 20, John B. Watson, um estudioso de psicologia
comportamental, dizia que, ao nascer, nós somos como páginas
em branco: o ambiente determina tudo. Na sequência, entrou
em voga o termo sociopata, a sugerir que a patologia do indivíduo
era fruto do ambiente, ou seja, das suas condições
sociais, econômicas, psicológicas e físicas.
Isso incluía o tratamento que ele recebeu dos pais, como
foi educado, com que tipo de amigos cresceu, se foi bem alimentado,
ou se teve problemas de nutrição. Os adeptos dessa
corrente defendiam a tese de que bastava injetar dinheiro em programas
sociais, dar comida e trabalho às pessoas, para que os problemas
psicológicos e criminais se resolvessem. Hoje sabemos que,
ainda que vivêssemos uma utopia social, haveria psicopatas.
"Um psicopata ama alguém da mesma forma como eu, digamos,
amo meu carro e não da forma como eu amo minha mulher. Usa
o termo amor, mas não o sente da maneira como nós
entendemos. Em geral, é um sentimento de posse, de propriedade"
Como se chegou a essa conclusão?
Na década de 60, vários estudiosos, inclusive eu,
começaram a pesquisar a reação de um grupo
de psicopatas a situações que, em pessoas normais,
produziriam efeitos sobre o sistema nervoso autônomo. Quando
se está na expectativa da ocorrência de algo desagradável,
a preocupação do indivíduo transparece por
meio de tremores, transpiração e aceleração
cardíaca. Os psicopatas estudados, mesmo quando confrontados
com situações de tensão, não exibiam
esses sintomas. Isso reforçou a conclusão de que existem
diferenças cerebrais entre psicopatas e não psicopatas.
Pouco a pouco, essas diferenças vêm sendo mapeadas.
É
possível observar sinais que indiquem que uma criança
pode se tornar um adulto psicopata?
Não há nada que indique que uma criança forçosamente
se transformará num psicopata, mas é possível
notar que algo pode não estar funcionando bem. Se a criança
apresenta comportamentos cruéis em relação
a outras crianças e animais, é hábil em mentir
olhando nos olhos do interlocutor, mostra ausência de remorso
e de gratidão e falta de empatia de maneira geral, isso sinaliza
um comportamento problemático no futuro.
Os
pais podem interferir nesse processo?
Sim, para o bem e para o mal, mas nunca de forma determinante. O
ambiente tem um grande peso, mas não mais do que a genética.
Na verdade, ambos atuam em conjunto. Os pais podem colaborar para
o desenvolvimento da psicopatia tratando mal os filhos. Mas uma
boa educação está longe de ser uma garantia
de que o problema não aparecerá lá na frente,
visto que os traços de personalidade podem ser atenuados,
mas não apagados. O que um ambiente com influências
positivas proporciona é um melhor gerenciamento dos riscos.
Os
psicopatas têm consciência de que são diferentes?
A consciência, o processo de avaliar se algo deve ser feito,
ou não, envolve não somente o conhecimento intelectual,
mas também o aspecto emocional. Do ponto de vista intelectual,
o psicopata pode até saber que determinada conduta é
condenável, mas, em seu âmago, ele não percebe
quão errado é quebrar aquela regra. Ele também
entende que os outros podem pensar que ele é diferente e
que isso é um problema, mas não se importa. O psicopata
faz o que deseja, sem que isso passe por um filtro emocional. É
como o gato, que não pensa no que o rato sente se
o rato tem família, se vai sofrer. Ele só pensa em
comida. Gatos e ratos nunca vão entender um ao outro. A vantagem
do rato sobre as vítimas do psicopata é que ele sempre
sabe quem é o gato.
É
muito difícil identificar um psicopata no dia a dia?
Superficialmente, um psicopata pode parecer um sujeito normal. Mas,
ao conhecê-lo melhor, as pessoas notarão que ele é
um indivíduo problemático em diversos aspectos da
vida. Ele pode ignorar os filhos, mentir sistematicamente, ou apresentar
grande capacidade de manipulação. Se é flagrado
fazendo algo errado, por exemplo, tenta convencer todo mundo de
que está sendo mal interpretado.
Um
psicopata não sente amor?
Acredito que sim, mas da mesma forma como eu, digamos, amo meu carro
e não da forma como eu amo minha mulher. Usa o termo amor,
mas não o sente da maneira como nós entendemos. Em
geral, é traduzido por um sentimento de posse, de propriedade.
Se você perguntar a um psicopata por que ele ama certa mulher,
ele lhe dará respostas muito concretas, tais como "porque
ela é bonita", "porque o sexo é ótimo"
ou "porque ela está sempre lá quando preciso".
As emoções estão para o psicopata assim como
o vermelho está para o daltônico. Ele simplesmente
não consegue vivenciá-las.
Que
figuras históricas podem ser consideradas psicopatas?
É difícil dizer, porque seu comportamento é
mediado por relatos de terceiros, e não por um diagnóstico
psiquiátrico. Mas o ditador da ex-União Soviética
Josef Stalin, por exemplo, era de tal forma impiedoso que talvez
possa ser considerado psicopata. O ex-ditador iraquiano Saddam Hussein
é outro exemplo. Eu ficaria muito surpreso se ele não
preenchesse todos os critérios para a psicopatia. Aliás,
Saddam tinha um filho claramente psicopata (Udai Hussein, morto
em 2003), dirigente de um time de futebol. Quando o time perdia,
ele torturava os jogadores, ou seja, era sádico também.
Já o líder nazista Adolf Hitler é um caso mais
complexo. Ele provavelmente não era só psicopata.
A
psicopatia é incurável?
Por meio das terapias tradicionais, sim. Pegue-se o modelo-padrão
de atendimento psicológico nas prisões. Ele simplesmente
não tem nenhum efeito sobre os psicopatas. Nesse modelo,
tenta-se mudar a forma como os pacientes pensam e agem estimulando-os
a colocar-se no lugar de suas vítimas. Para os psicopatas,
isso é perda de tempo. Ele não leva em conta a dor
da vítima, mas o prazer que sentiu com o crime. Outro tratamento
que não funciona para criminosos psicopatas é o cognitivo,
aquele em que psicólogo e paciente falam sobre o que deixa
o criminoso com raiva, por exemplo, a fim de descobrir o ciclo que
leva ao surgimento desse sentimento e, assim, evitá-lo. Esse
procedimento não se aplica aos psicopatas porque eles não
conseguem ver nada de errado em seu próprio comportamento.
No
Brasil, os psicopatas costumam ser considerados semi-imputáveis
pela Justiça. Os magistrados entendem que eles até
podem ter consciência do caráter ilícito do
que cometeram, mas não conseguem evitar a conduta que os
levou a praticar o crime. Assim, se condenados, vão para
a cadeia, mas têm a pena diminuída. O senhor acha que,
do ponto de vista jurídico, os psicopatas são totalmente
responsáveis por seus atos?
Eu diria que a resposta é sim. Mas há divergências
a respeito e existem muitas investigações em andamento
para determinar até que ponto vai a responsabilidade deles
em certas situações. Uma corrente de pensamento afirma
que o psicopata não entende as consequências de seus
atos. O argumento é que, quando tomamos uma decisão,
fazemos ponderações intelectuais e emocionais para
decidir. O psicopata decide apenas intelectualmente, porque não
experimenta as emoções morais. A outra corrente diz
que, da perspectiva jurídica, ele entende e sabe que a sociedade
considera errada aquela conduta, mas decide fazer mesmo assim. Então,
como ele faz uma escolha, deve ser responsabilizado pelos crimes
que porventura venha a cometer. Não há dados empíricos
que deem apoio a um lado, ou a outro. Ainda é uma questão
de opinião. Acredito que esse ponto será motivo de
discussão pelos próximos cinco, ou dez anos, tanto
por parte dos especialistas em distúrbios mentais quanto
pelos profissionais de Justiça.
O
senhor está para publicar um estudo sobre um novo modelo
de tratamento para psicopatas. Do que se trata?
Trata-se de um modelo mais afeito à escola cognitiva, em
que os pacientes são levados a compreender que até
podem fazer algo que desejem, sem que isso seja ruim para os outros.
Não vai mudá-los, mas talvez possa atenuar as consequências
de suas ações. É um tratamento com ambições
relativamente modestas, tem por objetivo a redução
de danos.
Revista
VEJA, edição 2106, 01 de abril de 2009
http://veja.abril.com.br/010409/entrevista.shtml