Que
conversão é essa?
O primeiro passo terapêutico é a abertura para receber
e para conhecer. O desejo de receber é inerente à
criatura, assim como o impulso à doação. Nossos
olhos buscam sempre novas realidades; nossos sentidos aspiram a
novas impressões.
A alegria é a capacidade de inventar-se. Para muitos pesquisadores
actuais, as doenças originam-se na tristeza, a degradação
da alegria, a perda do objectivo que significa a alegria de existir.
Nossos sentidos existem para nos despertar para realidades situadas
para além dos sentidos. O apelo dos sentidos é de
nos levar além dos sentidos; a limitação ocorre
quando tomamos por única realidade o que os sentidos e desejos
perceber. A liberdade está em entender o campo dos sentidos
como símbolos e sentimentos interior com a possibilidade
de ver-se para além dos sentidos.
Em
qualquer pessoa, existem duas realidades: a externa e a interna.
A interna é moldada pelo passado (a nossa história
pessoal) com a tendência de se ver o presente como passado.
A externa é experimentada em função da interna.
A função do terapeuta é unir estas realidades,
e cada terapia dentro de sua linha de trabalho.
Na situação terapêutica, recordar o passado,
geralmente é tido como a repetição do que foi
desagradável (padrões de comportamento). Porque repetimos?
A repetição é uma busca inconsciente pelo domínio
daquelas ansiedades que haviam sido incontroláveis anteriormente.
Cada repetição é uma oportunidade de modificação;
mas existem buracos negros imperceptíveis, que
apesar do nosso esforço de reparação, nos impossibilitam
de sair do círculo repetitivo. Campbell escreveu: Quem
não conhece o seu passado, está fadado a repeti-lo.
Ninguém
pode reconhecer o seu próprio inconsciente sem a ajuda de
alguma outra pessoa. Este personagem aparece como espelho, para
ajudar o inconsciente, tornar-se consciente. O que mantêm
o inconsciente afastado do consciente? A repressão. O que
é demasiado ameaçador é reprimido e esquecido;
da repressão derivam comportamentos que o outro (terapeuta)
pode reconhecer e se for interpretado e apontado de forma construtiva
e significativa para o paciente, dentro da relação
terapêutica, estes comportamentos começam a penetrar
no conhecimento do paciente e transformado em vivências unificadoras.
Nesta
díade terapeuta/cliente há uma comunicação
inconsciente (quer esta comunicação esteja consciente
ou não). Existem pesquisas da neurobiologia, que explicam
esta comunicação acontecendo no sistema límbico,
de forma idêntica de comunicação entre mãe
e filho nos primeiros anos de vida. Esta comunicação
existe em todos os relacionamentos humanos.
Na
situação terapêutica, o terapeuta procura o
inconsciente do cliente e o cliente lê o inconsciente do terapeuta.
Este último, comunica muito mais de si do que supõe,
e a isto, chamamos de TRANSFERÊNCIA. É nesta comunicação
inconsciente subliminar entre paciente e terapeuta, que muitas vezes
a terapia se faz e os scripts de nossas repetições
se desenrolam.
No livro Aprendendo com o paciente, o autor diz que
o terapeuta, deveria analisar, sob a perspectiva do cliente, o que
pensa que está acontecendo (supervisão interna). Colocar-se
na posição do cliente e perguntar: o que penso do
meu terapeuta, como vivo a nossa relação, que acontece
aqui e agora? Perguntar para o seu cliente: o que você pensa
de mim? Quais são os meus defeitos e qualidades para você?
Estes resultados são muito úteis na resolução
de conflitos transferenciais e na compreensão do que existe
no espaço entre o terapeuta e o seu cliente,
ou o cliente e o seu terapeuta.
Os
terapeutas muitas vezes, precisam tolerar longos períodos
durante os quais podem se sentir ignorantes e incapazes; isto é
saudável para o processo terapêutico, pois estar num
estado apropriado de não saber, abre perspectivas à
nova compreensão.
Bion, um grande psicanalista argentino, consagrou a abertura ao
desconhecido. Ele dizia: em todo o consultório, deveria
haver duas pessoas assustadas: o paciente e o analista. Reich,
por sua vez, considera que o cliente e o terapeuta são dois
animais num quarto.
As teorias psicológicas são utilizadas como instrumento
para moderar a incapacidade do não saber; as teorias são
suportes e a presença do terapeuta, a ferramenta.
Freud,
em seu trabalho O futuro de uma ilusão escreveu:
- E assim é criado um stock de ideias, nascido da
necessidade do homem de tornar a sua incapacidade tolerável.
Não saber não é ignorância, porém
muitas vezes são equiparadas. Os terapeutas deveriam suportar
a tensão do não saber, pois desta forma aprendem que
a sua incompetência como terapeutas, inclui a capacidade de
tolerar sentirem-se ignorantes e incompetentes e à disposição
de esperar (e continuar esperando) até que alguma coisa realmente
significativa comece a emergir. Só assim, evitamos uma interpretação
prematura, ou uma intervenção equivocada, que não
leva a nada, a não ser proteger o terapeuta do desconforto
de saber que não sabe.
Portanto,
as teorias psicoterapêuticas são suportes para a relação,
mas também pode cegar. A visão binocular (teoria mais
enfoque na unidade singular indivisível que
é a presença do cliente) é um factor de relevância.
Citando Ron Kurtz: Num ambiente favorável, o inconsciente
pode fazer desabrochar a cura das formas mais notáveis. Se
o terapeuta não for o ambiente correcto, o processo pode
levar um longo tempo. Ambiente correcto é um estado mental
do terapeuta; uma presença que transmite que o sofrimento,
o desespero não é sem sentido. A vida não é
sem sentido.
A
presença amorosa do terapeuta é a melhor fonte terapêutica
para os clientes avançarem. Poder criar um estado mental
de presença amorosa, faz parte do treino do terapeuta.
Neste treino, procurar o lado mais fácil do cliente ou mais
belo, poder visualizar a beleza do seu cliente é fundamental.
Outro
item para este treino é saber que o que você ouve,
é um exemplo da condição humana, faz parte
da história universal, da minha, da sua, de todo o mundo.
É a história da humanidade (a ontogénese repete
a filogénese).
O terceiro item, consiste em lembrar que estamos destinados à
iluminação e que todo o sofrimento que parece tão
real para nós, na realidade, está baseado num mal-entendido.
Não somos este self que sofre tanto; estamos sim, presos
numa armadilha que tem um segredo para ser desmontada.
Finalmente,
perceber que todo o processo de auto conhecimento é um processo
de resgatar o amor, reaprender a amar, pois todos nós nascemos
com esta capacidade, mas a esquecemos no meio do caminho.
Estela
Rúbia de Paiva Rodrigues
Bibliografia
Reich, Wilhelm A função do Orgasmo
Kurtz, Ron Palestra A Psicoterapia como prática
espiritual 1994
Kurtz, Ron Palestra Aprendendo com o paciente
I e II
Lelloup, Ives Terapeutas do Deserto
Cuidar
